Ele não se lembrava muito bem, mas a última vez que se encontraram foi no carnaval anterior. Se abraçaram longamente, matando a saudade esmagada entre seus braços. Desde aquele momento seus olhos sabiam e já não conseguiam se fixar em outro lugar senão os olhos dele.
As trivialidades deram, então, lugar a um assunto um tanto quanto peculiar em noites de carnaval. Não se sabe mais o ponto de partida, mas a poesia de Pessoa e de Drummond soava para quem passasse e também a filosofia de Foucault e a deliberação de Habermas podiam ser ouvidos, ainda que abafados pelo batido da banda que animava os foliões. E foi assim que se perceberam muito mais próximos do que poderiam imaginar. E assim também quiseram continuar juntos. E assim, na quarta-feira de cinzas, quando a banda silencia e o ano se inicia, pediram para o tempo parar.
Sabendo que todo carnaval tem seu fim, ela volta pra casa levando consigo quem fica pra trás. Ele fica, segurando com ele quem vai. E ainda que o carnaval tenha fim, haverá sempre poesia e filosofia a se falar, olhos a se encontrar, lábios a se beijar e vidas a se juntar.
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