Nada parecia estar diferente naquela tarde de domingo em que ela resolveu sair de casa meio sem rumo, meio sem querer. À pé, sem bolsa, documentos ou razão, passeava pelas ruas vendo pessoas passando apressadas, com destino e hora marcados. Ela não tinha destino, nem relógio. Aquele mundo não era o dela.
Seu mundo estava apenas atrás de seus olhos e nem mesmo o mais sábio poderia interpretá-lo naquele momento. Em uma rua de pouco movimento, embaixo de uma grande árvore de folhas largas, sentou-se no chão. Olhou para cima e viu azul. Fechou os olhos e suspirou. Nada parecia abalar ou concertar aquela situação. Equilíbrio.
Há alguns metros de distância, ele a observava com uma curiosidade incomum. Nem mesmo o sol diretamente em seus olhos o fazia piscar. Ela não havia se sentado há muito, mas desde sua chegada, transferira todas as atenções para sua direção. Ele já conhecia a cor de seu cabelo, de seus olhos, de suas unhas. Ele queria conhecer as cores de seus pensamentos, de seu coração e de sua lingerie.
Mas ele sabia que felinos se assustam com facilidade e uma aproximação repentina a faria fugir. Insistiu no olhar. Certeiro. Quente. Interpelador. Ela notou que ele tentava desvendá-la com um só olhar. Aquele olhar que lhe entrava pelos ouvidos e permanecia em sua mente tentando lê-la sem escrúpulos ou pudor. E em apenas um instante, revelou-se por inteiro para aquele que lhe desequilibrava. Em apenas um olhar.
Virar-se em direção ao olhar foi a entrega tão ansiada e temida. Ao ver, deixou-se ser vista. Completa. E no instante em que ele entrou em seus pensamentos e compreendeu o que se passava naquele reduto de idéias, sentiu-se parte dele. Ela o permitiu entrar como um beija-flor invade a varanda em tarde de primavera, como não imaginara fazer.
E assim, conhecendo todas suas cores, completou-se em arco-íris e notas musicais, sem limites.
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