Então é assim? Você chega, abre a geladeira, traz sua escova de dentes, muda os móveis de lugar, fala mal da vizinhança, reclama até dos meus hábitos, minhas manias, e depois vai embora. Muito bonito. Deixa tudo revirado, fora do lugar, como se nem fosse com você. Ah, se você soubesse o trabalho que deu para que tudo estivesse como eu sempre quis!
Não, não estou exatamente reclamando que agora terei que colocar tudo de volta ao lugar que pertencia antes da sua chegada. Na verdade, gosto daquele sofá ali, onde eu podia ver seu rosto dormindo enquanto eu lia no quarto. E também acho que a vizinha de cima é bem inconveniente. Aqueles livros? Abriram espaço para outros, na estante. O problema não está no que você deixou. O problema é tudo aquilo que você levou.
Não tenho mais suas roupas sujas espalhadas, mas também já não posso arrancá-las apressadamente num fim de tarde cheio de saudade e desejo. Não tenho mais sua caneca marcando a mesinha de centro, mas também não tenho seu peito acolhedor naquelas tardes frias de domingo. As discussões que me tiravam do sério e me levavam às lágrimas eram sempre compensadas pelos beijos da reconciliação.
E aí, num dia sem paisagem, sem som, sem cor, você some na poeira do asfalto, dizendo que a próxima estrada você pegará sozinho. Me deixando de malas na mão. Aquele sofá já não tem mais uso por aqui, aquele horizonte já não me parece uma meta, como sonhávamos, nossas roupas já não se abraçam no guarda roupas apertado... Mas a sua escova de dentes continua onde você deixou.
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