E então ela já não
sentia mais aquele ímpeto irresistível de escrever. E já faziam
falta as folhas de papel em branco e canetas destampadas ao lado da
cama, durante a noite. E já não lhe incomodava a falta de um
bloquinho na bolsa, dentro do ônibus ou de um gravador no banco do
passageiro enquanto dirigia.
As palavras continuavam
lá, inúmeras, repletas com seus múltiplos significados, povoando
sua mente e desestabilizando seus pensamentos. Mas desorganizadas.
Nunca estiveram tão fora de pauta, de ordem. Nunca significaram
tanto e nada com tamanha intensidade. Elas dançam, fazem evoluções
sem cerimônia entre sinapses, mas não querem ser sujeitos,
predicados, objetos. Querem ser apenas palavras.
Enquanto isso, ela se
esforça para explicar. Escrever? Já não tenta. É difícil e as
palavras, divertindo-se como crianças sapecas, correm pelo papel e
desviam do juízo, da coordenação, do tino.
Entrega-se ao silêncio,
mesmo com tanto a dizer.
Se não dá pra escrever, que tal tentar desenhar com caneta bic? [piada interna mode_on]
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