Não estou acostumada.
É muito tempo longe, muita imaginação e vontade, muitos batimentos
desperdiçados. O sangue latino me manda pra perto, me incita,
provoca. Atiça a imaginação que diz “o que você está
esperando?”. E aí, todo o trabalho que parecia simples, todos os
parágrafos e análises que sairiam fluidamente, parecem engasgados
em um labirinto que não encontra a saída. Apenas uma palavra
consegue sair do labirinto. Apenas um nome parece conhecer a solução
de Ariadne para Ícaro e encontra os dedos para chegar ao papel,
encontra a boca para ser ouvido.
Não me adianta esperar
as 5 da tarde, porque hoje você não estará na estação. E não é
sábado, você não virá. Não me adianta desbloquear o telefone,
pois não haverá notificação de mensagem sua. Você nunca me manda
mensagem a essa hora. Você não é surpreendente. É previsível e
centrado. Até tentei ser assim, para acompanhar seu ritmo e não
correr na frente. Mas parece que estarei sempre a sua espera, já
depois daquela esquina, olhando seus passos calmos e equilibrados em
minha direção. Enquanto você caminha, corro. Assim somos.
Quero te descobrir todo
de uma só vez. Segredos, gostos, sonhos. Onde você já esteve, para
onde quer ir, por que veio nessa direção. Quero conhecer cada
detalhe, cada curva e cada nuance. Todas as respostas em um só
olhar. Mas você, paciente, se apresenta devagar, um acorde por vez.
Não como uma janela que se abre, mas como um livro, passado página
por página.
E aí você nunca está
perto o suficiente para que eu sinta sua respiração, mas deixa que
eu sinta seu cheiro, para que eu não me esqueça de que você está
aqui. E suspiro, para tentar te puxar pra mais perto. E você não
vem. Ainda não é tempo. Você ainda é cheiro, não é toque.
Ainda preciso aprender
com seus movimentos calculados como se controla a vontade de te ter.
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